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Evidências da necessidade de um novo modelo para o Ensino Fundamental


Os resultados de 2017 do Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB), principal indicador de avaliação do ensino fundamental do país, trazem dados alarmantes, que apontam não só o despreparo dos estudantes avaliados como um erro crônico na estrutura da educação básica oferecida pelas escolas públicas do país.

As provas do SAEB, realizadas de dois em dois anos, refletem os níveis de aprendizagem de estudantes a cada etapa de conclusão dos ciclos do Fundamental 1 e do Fundamental 2. Esses níveis de aprendizagem estão descritos e organizados de modo crescente em Escalas de Proficiência de Língua Portuguesa e de Matemática para cada uma das etapas avaliadas. Como os alunos das escolas privadas não têm obrigatoriedade de participação, funciona como uma fotografia real da educação pública, sem o mascaramento que poderia ser causado pela mistura de alunos dos dois sistemas.

Esse diagnóstico é realizado em três momentos: final da educação básica, término do 5º ano e na conclusão do 9º. As provas do SAEB refletem os níveis de aprendizagem demonstrados pelo conjunto de estudantes avaliados. Além das provas, também integram o SAEB as respostas de professores e diretores aos questionários enviados às escolas selecionadas, a fim de mapear todo o cenário educacional. Outro fator de relevância é que seus resultados são combinados aos do Censo – que expressam as taxas de aprovação, reprovação e abandono, apuradas em cada uma das etapas – para compor o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), indicador oficial de desempenho da educação pública oferecida pelos mais de cinco mil municípios brasileiros em todas as 27 unidades da federação.

Para as provas de proficiência de Língua Portuguesa e Matemática, realizadas em 2017, eram esperados 2.072.925 alunos do terceiro ano do ensino médio. Apenas 1.459.747 se apresentaram para os exames. Ou seja, 613 mil jovens, ou 29,5% dos alunos, não compareceram. Estes, com certeza, estão em pior condição de aprendizagem.

Dentre os 70,5% do universo dos alunos do terceiro ano do ensino médio participantes da avaliação de matemática, somente 4,25% obtiveram ao menos 275 pontos, o que corresponde ao Nível 7, dado como proficiente. Assim, apenas 65.664 jovens que concluíam o ensino médio em 2017 tinham domínio razoável da disciplina. Mais representativos numericamente, 29% dos participantes zeraram a prova de Matemática. Somados aos que faltaram ao exame, 425 mil alunos obtiveram “Zero” como nota.

Pior ainda é o desempenho observado nas avaliações de Língua Portuguesa: apenas 1,64% dos alunos avaliados obteve conceito superior ou igual a 275 pontos, que equivale ao Nível 7, ou Proficiente. São apenas 24 mil estudantes.

Já os resultados relativos ao Ensino Fundamental 1 possibilitam algum otimismo. Entre 2005 e 2017, o resultado médio da proficiência em Língua Portuguesa cresceu 25% entre os alunos do 5º ano. Já em matemática, 17%. Nota-se uma melhora contínua, mesmo que tímida, principalmente quanto à matemática, onde os saltos mais significativos ocorrem de quatro em quatro anos.

De modo geral, os resultados apontam para a falência do modelo vigente. Esperava-se haver alguma pressa na sua revisão. A reforma do ensino básico, Fundamental 1 e 2 já está estabelecida. Sua proposta de organização curricular por habilidades e atitudes visa contextualizar mais o desenvolvimento do processo ensino/aprendizagem. O que observamos é que as escolas privadas já se movimentam com recursos e atividades para contextualizar o saber, com atividades pedagógicas diferenciadas, com ambientes denominados Makers, onde o aluno aplica o saber e contextualiza o conteúdo trabalhado.

Dentro das ações positivas da iniciativa privada relacionadas às reformas educacionais propostas e ainda não divulgadas, destaca-se a do Hospital Israelita Albert Einstein, que inaugurará sua escola de Cursos Técnicos na área de saúde, com programas integrados ao Ensino Médio. Trata-se de um passo à frente da reforma do Ensino Médio que já foi divulgada, recolhida e aguarda a coragem do atual ministro da Educação para a sua Divulgação, Promulgação definitiva e implantação.

Já no lado das escolas públicas, existem apenas alguns exemplos pontuais. Dentre esses raros exemplos há iniciativas financiadas pela Fundação Lemann em algumas unidades do CEU, na capital paulista, e no Ceará. Nelas, houve a criação de ambientes com estruturas diferenciadas para contextualização do saber, onde o acertar e errar são parte do projeto pedagógico. A Fundação Lemann não pretende expandir esse tipo de investimento para todo o país, mas espera que estes modelos sejam estudados e replicados da maneira mais eficiente pela Gestão Pública.

A reforma do Ensino Médio já foi discutida, apresentada e agora aguarda sua última adequação pelo ministro Rossieli Soares. Está claro que a busca de foco em uma quantidade menor de temas a serem estudados e a possibilidade de os alunos escolherem um eixo de aprendizado pode ser muito interessante, desde que as escolas sejam preparadas com recursos pedagógicos diferenciados e os professores e gestores capacitados para serem mais eficientes no desenvolvimento do projeto pedagógico. Educação Profissional integrada ao Ensino Médio Propedêutico é a real contextualização e aplicação dos conteúdos desenvolvidos.





Cesar Silva - Presidente da Fundação FAT, entidade sem fins lucrativos que desenvolve cursos nas áreas de educação e tecnologia.

Fonte: Revista Escola Particular, novembro-2018



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